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De mãe para mãe

  • Foto do escritor: Aline Bertolo
    Aline Bertolo
  • 14 de jan.
  • 2 min de leitura


A série All Her Fault provoca um desconforto já nos primeiros minutos e, na minha visão, isso não acontece apenas por causa do suspense ou do mistério da narrativa, mas pelo espelho social que ela coloca diante de nós.


All Her Fault constrói sua tensão em torno de uma situação extrema, mas o que realmente inquieta é algo muito mais cotidiano: a forma como a maternidade é constantemente colocada no banco dos réus. Desde os primeiros episódios, fica claro que o olhar da sociedade se volta quase exclusivamente para a mãe. Cada decisão, cada detalhe, cada dúvida recai sobre ela, como se a responsabilidade absoluta pela criança fosse naturalmente feminina.


O desconforto vem justamente daí. Não é só sobre o que acontece com a criança, mas sobre como todos se sentem autorizados a julgar a mãe. Julgam suas escolhas, sua rotina, seu nível de atenção, sua intuição. A maternidade é tratada como uma prova permanente de competência moral. Um pequeno erro, real ou imaginado, vira um veredito definitivo sobre quem aquela mulher é.


Diferente da figura paterna, que surge quase como coadjuvante emocional. Em muitos momentos, e isso ecoa a realidade fora da tela, os pais parecem alheios aos detalhes mais básicos da vida dos filhos: preferências, medos, hábitos, rotinas. E, ainda assim, raramente são responsabilizados com a mesma intensidade. Não se espera deles o mesmo grau de vigilância, nem o mesmo nível de culpa. Essa disparidade não depende de classe social, escolaridade ou contexto econômico, ela é presente em todos os ambientes.


O que mais me chamou atenção é que esse incômodo não é exclusivo de quem é mãe. Eu não sou mãe, e ainda assim me vi profundamente desconfortável e indignada. Porque a série escancara uma lógica que muitas mulheres já conhecem bem: a de que o cuidado é tratado como obrigação feminina, enquanto a ausência masculina é normalizada. Quando algo dá errado, a pergunta nunca é “onde estavam os adultos?”, mas sim “o que essa mãe fez ou deixou de fazer?”.


All Her Fault, para mim, funciona menos como um thriller tradicional e mais como um retrato cruel das expectativas sociais impostas às mulheres. A tensão não vem apenas do enredo, mas da sensação incômoda de reconhecer esse padrão, dentro da ficção e fora dela. É impossível assistir sem se perguntar quantas vezes, na vida real, repetimos esse julgamento automaticamente, transferindo toda a responsabilidade para as mães e isentando os pais de um papel que deveria ser igualmente compartilhado.


Talvez seja por isso que a série incomoda tanto. Porque, no fundo, ela não fala apenas sobre culpa individual, mas sobre uma culpa estrutural que a sociedade insiste em atribuir às mulheres, especialmente quando o assunto é criar, proteger e educar uma criança.


E no final, a mensagem mais impactante é a de Josephine/Carrie para Marissa, quando ela pede, “de mãe para mãe”, que proteja a criança daquele psicopata. Pedido atendido.

 
 
 

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